quarta-feira, outubro 11, 2017

Na espera do médico, ontem, uma moça que mora no Complexo do Alemão, disse que lá quem domina é o Comando. E que era necessário muito bandido para que houvesse o Comando. Eu ficava ouvindo pra ver se conseguia entender ao certo. Ela dizia que era recomendação médica que ela andasse todos os dias, mas ela parou com isso, por causa dos tiroteios, das balas perdidas. Ela tinha uma gargalhada meio pomba-gira e falava muito palavrão, pontuando todas as suas frases  de porras e caralhos. Ela conversava com um outro cara, que era morador de outra comunidade, num morro de Caxias, se não me engano. Ou Queimados. Eu não entendia nada ao certo, mas esse rapaz que conversava com ela entendia tudo e podiam conversar. Eu converso pouco com todos, porque não entendo as coisas ao certo. Eu queria ser onisciente e enxergar todos os lados, acima e abaixo, à frente e atrás, tudo ao mesmo tempo, no comando e no controle. Mas não tenho esse poder.

segunda-feira, outubro 09, 2017

Conversando ontem com o mais velho de meus primos, a gente falou um pouco desse lance de ir ficando mais velho. Nós, entre os primos, que nascemos nos anos 60, estamos todos reconfigurando um corpo, mais lento e tal. Em que as posições começam a se reajustar, a gente começa a prestar mais atenção nelas e tudo. Numa hora, um menininho que estava perto da gente posicionou sua bola para dar um chute. E quando distanciou um pouco dela para o impulso do chute, meu primo correu nela e começou a incitar o menininho para pegá-la de volta. Mas, aí, meu primo não conseguiu se manter com a bola. O meninho não se deixou driblar. Por isso é que tou falando que as posições começam a se reajustar. Porque também, na conversa que tivemos, tudo o que vivemos juntos e o tempo todo de distância, se reajustou no encontro. Ta tudo reconfigurado. Não tou conseguindo dizer direito. Mas é isso, acho que é só a sugestão de um assunto. Porque também, como ele disse, o amanhã não existe.

sexta-feira, outubro 06, 2017

Parei nessa frase do primeiro texto de “a alma encantadora das ruas’, livro do João do Rio:
“Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações parciais da pele, dores fulgurantes, a sensação de um contato que não existe, a certeza de que chamam por nós.”
Achei estranha essa forma de se auto-referir:
“Nós, os homens nervosos,...”
Porque o que se diz depois, não é explicação para homens nervosos, mas pode explicar qualquer um.

quinta-feira, outubro 05, 2017

Já faz um tempo, eu ainda morava em Papucaia e nas vezes em que eu estava no quintal compondo, vinha um pavor, num ímpeto, quando eu sentia que tinha chegado numa música. Quando eu avistava ela e, aí, depois, era só seguir escavando, pra libertar a bichana. Eu ficava bem assustado e ainda fico, quando vejo que posso avistar, destacado do chão, o que fiz e, aí, eu vejo que estou ali, como num espelho.
Isso é uma continuação do que escrevi aqui no Blog Azul, ontem. Sem ser um adendo, porque isso que escrevo agora, tem um outro corpo.
Então, tem pensamento que me deixa bem assustado, por exemplo, isso, pensar que posso ser dois, quando me olho no espelho de uma música que fiz.
Só que, hoje, estávamos falando, eu e Vitor Wutzki, sobre a música Ave Nada. Que é uma música que a cada vez, se mostra de um jeito diferente. Assim, radicalmente diferente. A cada execução dela, seu corpo é outro.
Então, o Vitor tava me dizendo que quando tocamos ela no 171, de BH, ele tinha visto pichada no muro em frente a figura de um peixe-ave. E ele pensou se isso, não era um prenúncio de que fôssemos chegar à Ave Nada definitiva. E para ele, chegamos a uma forma para ela. Mas falta achar o seu miolo, um estofo. Ou, não. E pra sempre ela terá outro e outro recheio.
Essa é uma forma de não ter susto.
De não se ver no espelho.
De não fazer retrato.
Como no post de ontem, de o Diário da Piscina e tudo o mais, ser apenas uma abstração.
Não é ninguém ali.

Ave Nada.

quarta-feira, outubro 04, 2017

A gente se desdobra em dois, quando canta e quando escreve. Porque a gente, ao mesmo tempo canta e ouve, e ao mesmo tempo, escreve e lê. A gente fica dentro e a gente vê de fora. Como quem se olha no espelho, narcisista.
Isso é uma coisa que eu penso muitas vezes em parar de fazer.
E também muitas vezes eu penso que não irei mais ter o espelho pra olhar, que ele vai sumir. Porque daqui a um tempo tudo vai ter a configuração diferente, como a configuração de agora já é outra e já não é espelho do que eu era anos atrás. E o Diário da Piscina já não espelha minhas aulas de natação, hoje.
Eu disse pra o Carlos, um jornalista de BH, que eu tinha escrito um livro perene, quer dizer, um livro que será para sempre espelho.
Eu disse assim:
“Este é um livro que eu apresento como se tivesse sido todo escrito agora. Há uma tristeza no início dele porque a história, afinal, fala sobre recuperação. Porém, ao mesmo tempo que em que abordo isso, o título também traz uma alegria que vem da própria possibilidade de a cada dia você perceber que está melhorando. Então, eu não acho que esse seja um livro que olha para trás. Lendo as descrições da cidade, das pessoas e do modo como o personagem se relaciona com elas na piscina, eu noto que a narrativa trata do presente. Pode soar algo pretensioso, mas eu produzi uma história que é perene”, comenta Capucho.
A entrevista toda do Carlos está aqui:



É como amor...

segunda-feira, outubro 02, 2017

Ainda sobre o sentido dos sonhos e depois de ter visto o documentário sobre o ator pornô, Rocco, pensando no Doc-ficção que o Rafael Saar fez comigo. Sem que tenhamos 24 cm de dote, sem que tenhamos ganhado dinheiro algum e fora do império da heterossexulidade. Mas com a mesma retaguarda.
Ante-ontem, o Fred me perguntou como vai o filme.
- Eu não sei – eu disse.
Fora isso, recomecei a pensar nos meus lados direito e esquerdo, os lados de minha cabeça, de minha coluna, que podem se conectar mais do que tenho conseguido até agora.


domingo, outubro 01, 2017

Faz um tempo que não pego n’As Vizinhas de Trás pra pintar.
Empaquei na Santa Moema.
Também faz um tempo que não pego o violão.
Cortei meu indicador ao abrir, uma lata de doces.
Também tenho pensado no caminho Paebiru, porque estava lendo um dos contos do A Alma Encantadora das Ruas, do João do Rio.
Fora isso, hoje, vi essa foto de uma Vizinha que fiz em 2008.
Achei bonita, empinada, vistosa.
Vejam:


Um Cinema Orly para o Flamengo: